Antropofagia em Eckhout
A XXIV Bienal de São Paulo, realizada em 1998, trouxe para o Brasil, entre tantas outras obras de arte, parte da série das pinturas brasileiras (os retratos de figuras femininas e a dança dos índios tapuias) do pintor holandês Albert Eckhout (1610-1665). Eckhout integrou a corte do Conde João Maurício de Nassau-Siegen (1604-1679) na sua estadia no Brasil de 1637 a 1644. Essas telas imensas com dimensões em torno de 1.60m por 2.65m. encontram-se na seção de etnografia do Museu Nacional de Copenhague. Elas foram parar lá depois que Maurício de Nassau ofertou as telas em 1654 a Frederico III, rei da Dinamarca e parente da sua mãe, em troca de dinheiro e de um título, algo como "Cavaleiro na Ordem do Elefante Branco". O imperador Pedro II, ao ver as pinturas de Eckhout em 1876, encantou-se tanto com elas a ponto de encomendar cópias de seis telas feitas pelo pintor-copista Niels Aagaard Lutz. Estas telas, de dimensões menores, se encontram no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro no Rio de Janeiro.
Foi um mérito da Bienal de São Paulo fazer reaparecer ao público brasileiro esses quadros que retratam um Brasil nascente, oportunamente, neste tempo de comemorações dos quinhentos anos do descobrimento do Brasil (do ponto de vista europeu). Vale a pena reabrir esse "período holandês" e considerar o significado desses pintores de Maurício para a arte e a cultura brasileira que até meados do século XIX estiveram na clandestinidade por se tratar de uma arte profana, feita por pintores vindos de uma nação herege, calvinista e judaica, invasora e inimiga.
A pintura dos artistas da corte de Maurício apresenta uma iconografia diferente sobre o novo mundo. Até então a Europa tomava conhecimento do mundo das Américas através de gravuras com traços caricaturais retratando índios comendo carne humana e outras raridades exóticas capazes de incitar a fantasia sobre o desconhecido e elevar o heroísmo dos desbravadores desses mares e terras selvagens. Eckhout é considerado como "o mais notável exemplo de uma visão objetiva e analítica dos habitantes nativos da América e como uma expressão de evidência de que os índios eram realmente humanos" (1). As suas pinturas foram as primeiras convincentes para a representação na Europa do tipo físico indígena brasileiro.
Este caráter histórico e o sentimento humanístico da obra eckhoutiana devem-se, creio eu, à identificação do pintor com esta terra, à sua curiosidade e vontade de aprender, ao seu amor por ela. Já dizia Santo Agostinho que só se conhece o que se ama, só há "logos" quando tiver "eros".
Falando de antropofagia em Eckhout apresenta-se um paradoxo. O pintor não retrata um mundo fantasmagórico, digamos índio comendo gente (com exceção do quadro da Mulher Tapuia), porque ele mesmo foi cozinhado, comido, consumido, assimilado neste caldeirão cultural que faz o Brasil ser brasil desde suas origens. Pode-se dizer que em Eckhout a antropofagia ganha seu sentido metafórico de encontro e confronto de diversas perspectivas culturais tendo uma digestão brasileira.
Nota-se uma vontade de documentar, relatar, comunicar o fascínio que o diferente despertou no artista. O pioneirismo dos pintores holandeses é, justamente, relativo à iconografia documental, naturalista. Eles limparam a barra, pesada e suja, da iconografia precedente, fantasiosa e fantasmagórica e configuraram a imagem plena e serena do universo exótico.(2)