A ORGIA PERPÉTUA DA ARTE
A personagem de Tereza Costa Rêgo questiona o mundo com pureza e deslumbramento. Repleta de solidão, como quem sai da agonia do orgasmo - o homem é filho da agonia e do gozo -, para enfrentar os arrepios da vida, expõe as coxas lisas e o ventre afetuoso. Por isso ocupa espaços vigorosos nos bordéis, nos cabarés de boleros e tangos, soluça no dia em que me queiras, cheios de luz vermelha, de beijos e de abraços, impregnados de bebidas, pintados em ângulos fechados, com uma tensão narrativa repleta de metáforas e de símbolos: não é sem razão que a mulher despojada de Bairro do Recife III dialoga ora com a companheira deitada, e também despida - que cochila ou relaxa, numa dessas tardes enevoadas de domingo -, com uma maçã que não chega à boca porque as mãos impedem - nos quadros de Teresa há sempre um impedimento, uma dificuldade, uma imposição -, ora com o homem de terno escuro e gravata vermelha tentando oferecer-lhe flores, um Tomás Seixas das noites recifenses cujo olhar, ao mesmo tempo sisudo e tímido, parece se dirigir à primeira mulher, numa atitude de dúvida e de encantamento. E há pelo menos dois gatos que ilustram o clima de encantamento e doçura: um aos pés da segunda mulher que compõe o quadro mas não o determina, e outro gato que sente a firmeza da mão da primeira mulher. Aliás, merecem atenção destacada nestes quadros de Tereza: as mãos. Essa mulher de dedos longos e firmes toca o gato com alguma agressividade, não exatamente dela para com o gato, mas dela para com sua própria tensão nervosa, sua resposta aos destemperos do mundo. Uma agressividade que não se adensa nos músculos e que se revigora sobretudo no polegar, no indicador e no dedo médio. Tudo em contraste com a maciez da pele e com a doçura do ventre, reafirmando-se contudo na desproporção das coxas e dos seios, e com a mansidão dos olhares vazios, distantes, um aparente desequilíbrio entre as partes - estudado desequilíbrio que reflete o questionamento e a angústia da pintora. Não é por acaso que o gato não aparece em atitude passiva de quem está sendo acarinhado. Pelo contrário, mostra-se desperto, atento, desconfiado. Tenso. Como quem conhece a intenção inconsciente da dona.
É João Câmara quem define, sem dúvida, todo este trabalho de Tereza Costa Rêgo numa frase curta e definitiva: "Cor em primeira pessoa do singular". Ele estava refletindo sobre o desenvolvimento artístico da pintora, destacando que "você quis mudar e o fez pela reforma substancial da base: do branco puro velado ao negro absoluto obturado pela luz. Contrastes assim tão radicais você já havia trespassado no trajeto pessoal de Tereza Costa Rego para a Companheira Joana, mas esta é uma outra e a mesma história". Pronto, toda análise começa aqui. Toda narrativa na primeira pessoa do singular é por si mesma tensa e fechada, em geral escurecida, interiorizada, íntima. Com os olhos para a alma e os ouvidos abertos para o mundo. Surge, então, "o negro absoluto obturado pela luz". O espírito está em combate. A carne se dilacera. Num plano, a pintora consciente de sua técnica e das suas potencialidade; noutro, a mulher que tingiu o calcanhar de sangue na busca do humano, do absolutamente humano e belo. A tarefa se assemelha ao místico que no silêncio da sua agonia procura a luz. E com um elemento novo, a palavra-chave, a palavra-definitiva: sinceridade. O francês André Gide disse que somente com sinceridade o artista alcança sua plenitude. Por isso as telas estão fechadas dentro de um ângulo de visão que sustenta o olhar em vigor e reflexão, assim feito nos romances, nas novelas, nos contos. A lembrança, digamos, segue um túnel e se despeja num abismo. Cai. Tem mais de arremesso do que de impulso. Não se sustenta com as próprias mãos. A primeira pessoa vai em busca do tumor que se aloja no canto mais enigmático da alma, latejando. Dilacera. E não há outra saída senão golpeá-lo. Não há salvação. Investe em novas cores, esquece outras. E mais João Câmara: "Não há azul nessas cenas de exterior, embora Olinda seja quase tão azul quanto os sapatos do poeta". O azul se revelaria puro e Tereza não estava nem um pouco interessada na pureza. Queria investir e transgredir, ofender de morte matada o tumor que a impedia de compreender a humanidade. E compreender também a solidão que fazia a mulher soluçar. Lembro-me do verso de Federico Garcia Lorca: "Quem soluça entre os matagais?" E, mais além, escuto Raul Córdula: "A técnica pode ser um meio, um veículo que com a experiência o artista aprimora até a virtuosidade, mas o ponto de chegada, a obra em si, depende da luz do coração do artista." E a luz do coração do grande artista está sempre cheia de sinceridade. A clássica "Mulher Nua Deitada", de Tereza Costa Rêgo, grito primal e dilacerante de toda essa fase revolucionária - brilhante e atormentadora fase revolucionária - congrega elementos fundamentais: nudez, afeto, beleza, o corpo leve e meigo, os seios duros - ainda tensos e belos, intumescidos, sensuais, de quem pede mãos para um gemido de amor - e no entanto cercada por um gradeado de cama que é a sua própria prisão, uma mulher que deseja e anseia, em cujas carnes tremem a ansiedade e o prazer, tem a fase dilacerada e os olhos presos no teto, mais técnica do que afetuosa, feito quem espera sem esperança, mesmo que a esperança - a maçã - esteja ali a seu lado, tocando no seu ventre, enfeitiçada pelos gatos e pelos travesseiros, e que se chama Pecado, a maçã vermelha do Pecado, e ela não quer o Pecado mas a Esperança. E a Esperança está derrotada. Vem daí a transgressão do símbolo, a sua metamorfose, a alteração, não o Pecado, a Esperança.
É claro que estou tentando compreender os elementos que conduzem a obra de Tereza, descobrindo os motivos que compõem a sua obra, exercitando-me na tarefa de esmiuçar os caminhos da artista através da sua estruturação expressiva, sem que isso me ligue a qualquer escola - até que me faltam a chamada fundamentação científica. Só para lembrar, ninguém mais compreendeu a obra de Rembrandt do que um escritor, Jean Genet. Ninguém mais se apaixonou pela obra de El GRêgo do que outro grande escritor, Kazantzakis. E Hemingway revelaria mais tarde que aperfeiçoou a arte de escrever depois que visitou a obra da El Greco, na Espanha. Por isso concordo com Fernando Monteiro que a chama de "uma pintura de mistérios", acrescentando que "nenhum bom artista pinta só o que vê e a receita romântica permanece atual o bastante para continuar induzindo os (bons) artistas a olhares, porta adentro, para onde, numa sala, num quarto, acabou de acontecer algo que alguém - do outro lado de qualquer janela indiscreta - não chegou a ver ou perdeu por pura indiferença da imaginação." E também com Ariano Suassuna que vê nela "uma forma central meio circular e de um palco", e que me remete justamente a esta visão de uma obra que reflete o problema não só dos bordéis mas sobretudo da mulher brasileira, na tradição religiosa, encarcerada na culpa, no remorso, punida todo o tempo,por uma sociedade que só vê pecado onde na verdade reina a esperança.
Tudo isso mostra que aqui não há aquele folclorismo romântico dos bordéis, representado nos salões imensos e iluminados, barulhentos e solitários, nos romances do pernambucano José Conde, em "Pensão Riso da Noite", ou na obra de Jorge Amado, no "Vesúvio", de "Gabriela, Cravo e Canela." No cabaré "Caneco Amassado", de Salgueiro, no Sertão do Estado, ou no "Cavalo Raspado", de Ribeirão, ou na "Coréia", de Palmares, na Zona da Mata. No "Chanteclair" ou na "Pensão da Baiana", no bairro da zona do Recife, na "Mauá" ou em "Dora", no centro da cidade. Pelo contrário há alguma contenção de quem reflete os cabarés numa visão plenamente feminina, de certa maneira contida mas apaixonada, onde existe mais sofrimento do que alegria, mais solidão do que felicidade, onde as putas choram e se abraçam em solidariedade, sobretudo através daquela conceituação do mesmo Schenberg chama de "ternura melancólica", escutando soluços onde devia haver risos. Ou sorrisos. Ou gargalhadas. Pode-se assegurar portanto que Tereza Costa Rêgo alcança nessa exposição a plena maturidade de uma artista , que já estivera consagrada em "Sete Luas de Sangue", onde também uma lindíssima mulher é oferecida - no melhor sentido da palavra, na verdade: consagrada - a políticos brasileiros, numa mesa de jantar, e onde se realiza a demolidora crítica ao canibalismo de certas esferas da sociedade brasileira. Lá também estão os gatos - duplos, quase sempre duplos -, o marinheiro, a religião. Aliás, sempre que se falar em Tereza, lembre-se que se trata de uma artista profundamente crítica, que alia o poder da forma ao político, ao ideológico. Algo que está sendo sempre preocupando o campo luminoso da arte. E que sempre volta a ser discutido pelos teóricos e pelos criadores. Ainda ouço distante: não há forma revolucionária sem conteúdo revolucionário. Passam as gerações e o debate continua. De minha parte, acredito - sinceramente - que não há nenhuma possibilidade - a mais remota que seja - de obra de arte sem uma forma renovadora. Nos dias mais recentes, os suplementos culturais do País vêem rediscutindo o problema, até mesmo porque, em muitos casos, recusam-se as formas em favor do mercado, refletindo a absoluta vitória do capitalismo, e que me preocupa muito. Com certeza esse não é o caso de Tereza Costa Rêgo que atinge o melhor de sua criação artística nessa exposição. Afinal, não se constrói uma obra de arte com plumas e lantejoulas mas com dor e sangue. Uma obra maiúscula. Tensa e bela. Raimundo Carrero - Recife, 2003
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