
PINTURA MESTIÇA
A monumentalidade da obra recente de Tereza, que de resto é uma tendência da arte pernambucana, é mais uma forma de amor ao seu público, dando de si mais pintura: a generosidade regida pela lua, o aspecto feminino e pela terra - GEA - na sua abundância. Para não confundir qualidade com quantidade, como chamo a atenção para a abundância de boa pintura, mas assinalo também que esta abundância faz parte da sua maneira de ver o mundo numa cidade, Recife-Olinda, que para início de conversa, é dupla. E tem como força a mestiçagem étnica e cultural nas cenas visíveis no Porto do Recife, no judeu-holandês-português-mulado e índio, que transcede nas veladuras e nas luzes dessa pintura arrebatadora que quer dizer a todo instante que nós somos a única cultura mestiça de real importância da dramática história da sociedade contemporânea. Entre grêgos e troianos, até parece que não temos identidade nenhuma. Como diz um poeta amigo meu: "assim, só assim, exposto ao tempo, parado nesta sala calorenta, bem sei que o Recife é só Recife / Sem nunca ser Veneza ou Florença". É aí que reside nossa marca fortíssima, nossa cara inconfundível traduzida na grande pintura de Tereza.
Raul Córdula - Olinda, 1984
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