Mais do que simples padrão no vestir, a moda é um espelho onde se reflete a vida de uma sociedade. Se no princípio dos tempos a roupa foi usada como proteção do corpo, bem cedo ela adquiriu um significado social, quando o homem percebeu que seu poder de criar símbolos que outros compartilham é o que define a sua própria humanidade.

Houve um tempo em que a moda era para poucos, marcando de maneira rígida distinções de classes. A partir do século XX a moda ganhou as ruas, com a abertura dos primeiros prêt-à-porter. Foi assim que ela se tornou capaz de refletir sentimentos coletivos. Como no uso de tons sóbrios, durante períodos de guerra. Como nas jaquetas de couro e nas motos barulhentas, através das quais os jovens expressaram sua rebeldia. Como nos esvoaçantes vestidos florais, que veicularam depois seu desejo de paz e amor. Hoje a moda busca novos caminhos, num tempo em que a auto-expressão se tornou um imperativo e novos desejos se criam e recriam a todo instante, alimentando o incessante fluxo do consumo.

Do começo de sua história na segunda metade século XIX pouco restou, a não ser a forte presença da mão-de-obra direta. Foi nessa época que surgiram os primeiros estilistas, e seus ateliês, que geralmente funcionavam em suas casas, deram origem à designação corrente até hoje nos meios da alta costura, onde se fala em Casa Dior, Casa Pierre Cardin . Esses ateliês vestiam as grandes personalidades da sociedade e, logo depois, com a difusão do cinema como entretenimento de massa, elas passaram a vestir também os grandes astros e estrelas. Foi através deles que sucessivas gerações aprenderam o que significava estar na moda.

Aproveitando este sucesso, já na década de 40 algumas redes de lojas varejistas tornaram-se verdadeiros supermercados da moda, levando até as pessoas comuns modelos similares às criações da alta costura a preços bem mais accessíveis. O sucesso foi tanto que, enquanto o homem chegava à Lua, os grandes magazines se espalhavam por quase toda a face da Terra. Uma revolução que realmente democratizou a moda.

Mas depois os tempos se tornaram mais seletivos, exigindo novas formas de criação e comercialização da moda. A figura do criador de estilo foi mais uma vez valorizada e atingiu seu ápice nas décadas de 50 e 60, quando um vestido com assinatura era (e ainda é) objeto de desejo de muitas mulheres. Paralelamente, jovens estilistas traçavam já os rumos de uma outra revolução, com criações ousadas que materializavam novos anseios, nos loucos anos 70. Foi então que surgiu em Londres a marca BIBA, que transformou o mercado da moda com suas lojas em estilo butique, onde se vendiam peças que refletiam um estilo de vida. Sua moda e sua forma de distribuição foram desde então copiadas por toda parte.

Na década de 90 o mundo viu a moda se transformar em um grande e lucrativo negócio, dominado por holdings de empresas que surgiram da união entre a visão comercial das butiques e o design precioso das Casas dos grandes criadores de estilo. Globalizando, democratizando ou até mesmo massificando a moda, estas corporações fizeram o mundo dos negócios perceber as mil possibilidades de sucesso que ela oferecia. Desde então a moda se profissionaliza, permitindo o surgimento de escolas, associações, eventos e semanas-de-moda que se multiplicam, dia após dia, por todos os lugares. Jovens talentos são descobertos e eles trazem novas perspectivas, reciclando ou inventando novos caminhos para uma moda que se revela cada vez mais plural.

E após toda essa viagem, começamos a trilhar um caminho de volta, porque a moda é sobretudo um ciclo, um vai e vem de informações e referências que, ao lado do global, valoriza agora o local, os traços regionais, a individualização, como total liberdade de personalização do estilo. Este é o tempo de uma outra moda. É a moda de cada um. A minha, a sua, a nossa moda, que se baseia agora em conceitos de bem viver. Do bem viver com você mesmo e com o mundo.