Nascidos num berço onde a cultura popular fervilha a cada esquina, praça e cidade, todos nós sabemos que o ambiente criativo de Pernambuco é dos mais ricos de nosso país. Por isso sabemos também que uma moda pernambucana tem caminhos tão específicos quanto a própria mistura que somos nós.

Vivemos num grande celeiro de criação, onde cores, formas, materiais e soluções se misturam para criar, nos trajes dos brincantes de nossos folguedos populares, figurinos de extraordinária beleza e grande riqueza de significados. No entanto, a moda que veste nossa sociedade tem como modelo os caminhos da moda nacional, onde as referências são aquelas importadas de países de clima, história e tradição muito diferentes dos nossos. Essa incoerência é claramente percebida quando se observa o comportamento das classes mais baixas que, de maneira criativa, transformam a roupa encontrada no comércio em uma realidade mais próxima, fazendo uso de alternativas como a troca de tecidos ou o corte no comprimento das peças para chegar a soluções que cheguem perto do desejado.

É inegável que, em Pernambuco, muitos ateliês que primam pela qualidade têm uma produção fundamental para que hoje tenhamos um ambiente propício para criar moda em nosso Estado. Grandes nomes trabalham com alta costura em verdadeiras escolas de mão-de-obra, o que repercute em uma melhora contínua da nossa roupa. Nesse caminho, evoluímos bastante, e forte foi a nossa colaboração para a moda nacional nos idos dos anos 80. Com o boom das pronta-entregas, Pernambuco teve participação ativa em vários eventos nacionais, com retornos de venda e reconhecimento da qualidade de nossos produtos. Novas empresas continuam a colocar o Salão da Moda de Pernambuco no calendário das feiras nacionais. Portanto, não se trata de desconhecer o nome de pioneiros que, com sua competência e espírito empreendedor, foram capazes de trabalhar dentro dos conceitos internacionais da indústria de moda, elevando bem alto o nome de nosso Estado. Todavia, é preciso reconhecer também que ainda temos padrões estilísticos e de consumo sem uma identidade pernambucana.

Foi preciso algo maior para que houvesse uma mudança de perspectiva. Algo que nos permite repensar nossa moda a partir de uma redefinição mais ampla dos caminhos da nossa cultura. Refiro-me ao movimento Mangue Beat, que não só mudou nossa música como também transformou todo um jeito de ser e de ver nossa cultura como referência e valor. É esse fervilhar que pouco a pouco vem se incorporando ao comportamento do pernambucano, a princípio no litoral, e hoje invadindo até mesmo o sertão.

É no bojo desse intenso processo de transformação que surgem os novos criadores, com uma clara consciência de que é preciso produzir uma moda pernambucana na qual nossas raízes sejam a inspiração maior. Isso não significa uma moda com características folclóricas. Ao contrário, essa produção tem clara consciência dos valores de uma moda internacional e nacional. Trata-se, no entanto, não só de seguir suas tendências, mas de fazê-lo a partir de nossas próprias referências, criando um diálogo entre o global e o local, o regional e o nacional. Este é o movimento que agora chega até os nossos grandes ateliês, que passam a também a incorporar os valores de nossas tradições. Por isso felizmente já podemos dizer que, em Pernambuco, hoje nossa moda é tão rica quanto nossa cultura.